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Síndrome da ardência bucal

BURNING MOUTH SYNDROME


Carlos Eduardo Xavier dos Santos Ribeiro da Silva 1
Rodrigo Alarcon Cerri2
Silvia Cristina de Oliveira Bressan3
Artur Cerri 4
Francisco Octávio Teixeira Pacca5

 

Resumo

A Síndrome da Ardência Bucal (SAB) é uma condição caracterizada pela sensação de queimação da mucosa bucal, sem que uma causa física possa ser detectada. Afeta principalmente mulheres na pós-menopausa, com mais de 50 anos. Diversos fatores são apontados como possíveis desencadeadores dessa patologia e muito se discute sobre a importância de fatores psicogênicos, como ansiedade e depressão, na sua etiologia. Não há tratamentos estabelecidos e padronizados, sendo necessário na maioria das vezes, abordagem multidisciplinar.

 

Descritores:

Mucosa Bucal. Etiologia. Diagnóstico. Terapia.

1.Professor Titular da Disciplina de Estomatologia da Universidade de Santo Amaro (UNISA); Doutor pela UNIFESP

2.Especialista em Estomatologia pela Universidade de Santo Amaro (UNISA).

3.Estagiária da Disciplina de Estomatologia da Faculdade de Odontologia da UNISA.

4.Diretor da Escola de Aperfeiçoamento Profissional da APCD. Especialista, Mestre e Doutor em Estomatologia pela USP.

5. Especialista, Mestre e Doutor em Estomatologia pela USP.

 

Revisão de Literatura

A síndrome de Ardência Bucal (SAB) ou da “Queimação Bucal” pode ser definida como uma entidade clínica caracterizada pela dor e sensação de ardor (queimação), localizada em qualquer região da mucosa bucal, sem que se possa detectar qualquer alteração ou lesão fora dos padrões de normalidade e com achados laboratoriais normais17. A sinonímia encontrada na literatura abrange distesia oral, estomatopirose, estomatodinia7. Nos casos onde a sensação de ardência é restrita à língua são utilizados termos como glossodínia, glossopirose ou glossalgia18.

A SAB é mais prevalente em mulheres após a menopausa acima dos 50 anos de idade5,6,13,17. Sua manifestação antes dos 30 anos de idade é rara11. Os sintomas mais comuns relatados pelos pacientes são: xerostomia6,13, paladar alterado6,13, sede13, sensação de queimação na língua17 e nos lábios13. Marcucci 200511,relata que a xerostomia é a queixa bucal secundária mais frequente entre os portadores de SAB, ocorrendo em cerca de 60% dos casos. As localizações mais afetadas são ponta, borda e dorso da língua, lábios e mucosa bucal13. Terci el al18 2007, cita ainda regiões como palato e rebordo alveolar superior. Mucosa jugal, assoalho bucal e orofaringe são localizações menos frequentes11.

Segundo Nascimento et al12 2006, a bilateralidade usual da sensação dolorosa, acrescida ao fato de não respeitar a anatomia dos nervos responsáveis pela degustação, são importantes indicativos para excluir-se uma neuropatia.

Nenhuma diferença significativa em relação à idade, sexo, tempo de duração da doença ou locais de queimação foi encontrada entre os indivíduos que apresentaram a remissão parcial ou total, comparados com aqueles que continuam com o problema17.

Não é incomum paciente portador de SAB relatar dificuldade para dormir à noite e queixar-se de sono interrompido. Relatos de mudanças de humor tais como irritabilidade e diminuição no desejo de relacionamento, podem ser relacionados com padrões alterados de sono17.

A ingestão de bebidas e alimentos em temperaturas muito quentes ou muito frios, agravam os sintomas de ardência e sensação de queimação da SAB, além de alimentos condimentados e ácidos16.

Silverman et al17 2004, afirma que a remissão parcial da SAB é observada em aproximadamente dois terços dos casos dos pacientes após período de 6 a 7 anos.

 

Etiologia

A etiologia da SAB é desconhecida6,11,13 e dividida por diversos autores em fatores locais, sistêmicos e psicogênicos, o que evidencia o seu caráter multifatorial.

Dentre os fatores locais, podemos destacar o fumo, o álcool, o refluxo esofágico, hábitos parafuncionais (bruxismo) e próteses mal adaptadas como agentes irritantes da mucosa oral6,17. A maioria dos estudos não sustenta a irritação química ou reação alérgica aos materiais dentários como causas significativas da SAB17, porém o diagnóstico da alergia pode ser facilmente confirmado quando removido o contato do material com o tecido bucal18. Para Drage et al7 2003, o teste alérgico deve ser realizado em todos os pacientes.

As infecções bacterianas, fúngicas e virais também são apontadas como fatores locais. Dentre elas, destacam-se as infecções fúngicas causadas por Cândida albicans, maior responsável pela sensação de ardor nos portadores de próteses9.

Cavalcanti5 2003, analisou trinta e um pacientes com SAB. Nenhuma associação foi observada entre a SAB e a prevalência de leveduras do gênero Cândida. Ressaltou ainda a possível relação da síndrome com uso crônico de medicamentos, depressão, climatério e cancerofobia.

Recentes relatos de queimação bucal decorrente do uso de inibidores da enzima conversora de angiotensina (ACE), como o captropil, enalapril e lisinopril, indicaram a remissão após a descontinuação da medicação17.

A disfunção das glândulas salivares pode levar a um quadro de xerostomia, ressecando as mucosas bucais, causando desconforto e ardência15.

Bogetto et al3 1998, afirma que existem alguns fármacos que podem diminuir o fluxo salivar e com isso causar o aparecimento dos sintomas da SAB, tais como os antiespasmódicos, antidepressivos, antipsicóticos, relaxantes músculos-esqueléticos, antiparkinsonianos, antiarrítmicos, antihistamínicos, anticonvulsivantes, ansiolíticos, moderadores de apetite, diuréticos e anti-hipertensivos.

Como fatores sistêmicos, estão associados a SAB o diabetes18, Síndrome de Sjoegren17,18, anemias18, deficiências hormonais (TSH)17, radioterapia, deficiências de nutricionais de vitaminas do complexo B17,18 e de ferro17,18 e o climatério18.

Nascimento et al12 2006, afirma que pacientes diabéticos são mais susceptíveis a infecções oportunistas, podendo levar a SAB devido às infecções fúngicas. O percentual de pacientes diabéticos que relatam o sintoma de ardência bucal varia de 2% a 10%.

Blachman et al1 2001, relata uma amostra de 40 pacientes com a Síndrome da Boca Ardente (SBA) em relação aos aspectos físicos e psicológicos, encontrando-se para 95 por cento deles uma deficiência de lítio sérico. Concluiu-se, mediante análise estatística, que essa relação deva ocorrer em até 88,1 por cento dos pacientes com essa síndrome.

Deficiências nutricionais prejudicam o reparo tecidual, podendo gerar despapilação da língua e conseqüentemente provocando sensação de ardor e queimação12.

Nos fatores de origem psicogênica, estão incluídos indivíduos ansiosos, desconfiados, deprimidos, cancerofóbicas e os psicóticos maníacos depressivos.

Rodriguez et al16 2007, realizaram um estudo em 83 pacientes portadores de SAB onde 63% apresentavam transtornos psicológicos, com destaque para ansiedade, depressão e alterações durante o sono.

 

Diagnóstico

O diagnóstico da ardência bucal é eminentemente clínico. Frente à presença de qualquer lesão, estará descartada a hipótese de SAB. Além da anamnese detalhada, procura-se traçar um perfil psicológico do paciente. Patologias como o líquen plano, língua geográfica e a estomatite protética produzem sensações semelhantes às da SAB13,18.

Exames complementares como cultura para Cândida albicans, hemograma completo, glicemia em jejum, níveis de ferro sérico, níveis de vitamina B, dosagem hormonal, níveis de secreção salivar e os testes sorológicos para anticorpos da Síndrome de Sjoegren são amplamente utilizados13,15.

 

Tratamento

Apesar de não constituir uma doença grave e não representar risco à vida do indivíduo, a SAB é um transtorno que leva boa parte da população acometida à busca de um tratamento que ainda não existe6.

O uso de antidepressivos tricíclicos (TCA), alivia a queimação bucal em alguns pacientes. Os mais usados são a amitriptilina (TryptanolR), desipramina, nortriptilina, imipramina (ImipraR) e clomipramina (AnafrilR), embora apenas a amitriptilina tenha sido avaliada em experimentos clínicos17.

Benzodiazepínicos, como o clorazepam, podem ser eficazes para alterações dolorosas como a SAB17.

O controle do consumo do fumo e do álcool deve ser promovido, bem como o balanceamento da dieta alimentar, evitando-se alimentos condimentados e de alto teor ácido. Hidratação constante da mucosa oral serve de grande alívio para os sintomas de ardência.

A prescrição de vitamina B é bastante citada na literatura como um recurso utilizado na melhoria das ardências, obtendo-se excelentes resultados9.

Nos casos onde a cultura de fungos for positiva para Cândida albicans, aplicações tópicas de Nistatina e eventual troca da prótese produzem resultados clínicos satisfatórios.

Na aplicação da laserterapia, a sintomatologia da queimação é diminuída proporcionando alívio da dor e controle da inflamação ao paciente. Os efeitos terapêuticos são imediatamente relatados pelo paciente logo após a aplicação10. A aplicação deve ser feita logo após a área acometida ser limpa e seca, com auxílio de gaze e durante a irradiação deve manter-se o campo isento de umidade, a forma de aplicação de ser pontual, com dosimetria de 4-5 J/cm² durante 2 a 3 sessões semanais, com intervalos de 48 horas até a remissão dos sintomas4.

Blom et al2 1992, afirma que a acupuntura é largamente utilizada para diferentes finalidades médicas, também representando possível método de tratamento para SAB, podendo, além de agir em terminações nervosas, gerar um aumento do fluxo salivar.

O ácido alfa-lipóico é um potente antioxidante. Essa substância apresenta uma possível ação neuroprotetora e tem mostrado eficácia no tratamento da SAB11. Femiano etal8 2004 realizaram um estudo com 192 pacientes portadores de SAB e concluíram que o uso do ácido alfa-lipóico pode ser usado como um complemento junto com outros agentes psicoterápicos, necessitando ainda de novos estudos para comprovação da sua real eficácia.

Em pacientes com estado de ansiedade e depressão, a avaliação psicológica e psicoterapia são recomendadas como parte do tratamento6,11.

A capsaicina tem tido seu uso diminuído pelo incômodo de aumentar a sensação de ardor no início do tratamento, pelos efeitos colaterais gerados pelo uso sistêmico (irritação gástrica) e pela baixa efetividade no controle dos sintomas12. Petruzzi et al14 2004, após pesquisa com o uso sistêmico da capsaicina a 0,25% afirma que seu uso é efetivo em curto prazo, mas que devido a irritações gastrointestinais provocadas pelo uso em longo prazo, se faz necessário ainda estudos para comprovação da posologia e tempo de uso ideal da substância.

Diante das diversas possibilidades de tratamento, é de grande importância, que o cirurgião-dentista seja realista e não mostre ao paciente grande otimismo e nem ofereça solução fácil, pois este poderá ter que aceitar e aprender a conviver com a doença, no caso de um tratamento sem sucesso.

 

Conclusões

A Síndrome de Ardência Bucal é uma condição com múltiplos fatores etilógicos, sendo que as condições de origem psicogênicas (depressão, ansiedade e cancerofobia) estão entre as principais causas.
Novos estudos fazem-se necessários a fim de que se elucide a causa da SAB para proporcionar melhor qualidade de vida aos pacientes.
È importante o cirurgião-dentista fazer com que o paciente entenda a complexidade da síndrome e aceitar a conviver com sua sintomatologia.

Referências Bibliográficas:

1- Blachman IT, Salgado CM, Silva OMP. A carência do nível sérico de lítio e a síndrome da boca ardente: da observação à ação. Ver Odontol UNIFESP 2001;30(2):271-5.

2- Blom M, Dawidson I, Angmar-Manson B. The effect of acupunture on sw rates in patients with xerostomia. Oral Surg Oral Med Oral Pathol 1992;73(3):293-8.

3- Bogetto F, Maina G, Ferro G, Carbone M, Gandolfo S. Psychiatric comorbidity in patients with burning mouth syndrome. Psychosom Med 1998; 60: 378-85.

4- Brugnera Junior A, Santos AECG, Bologna ED, et al. Atlas de laserterapia aplicada à clínica odontológica. São Paulo: Santos, 2003.

5- Cavalcanti D. Síndrome de ardência bucal: perfil clínico de pacientes e prevalência de leveduras gênero do Cândida (tese de mestrado). São Paulo: Faculdade de Odontologia da USP; 2003.

6- Cherubini K, Maidana JD, Weigert KL, Figueiredo MA. Síndrome da ardência bucal: revisão de cem casos. Revista Odonto Ciência 2005;20(48):109-112.

7- Drage LA, Rogers RS. Burning mouth syndrome. Dermatol Clin 2003;21:135-45.

8- Femiano F, Gombos F, Scully C. Burning Mouth Syndrome: open trial of psychotherapy alone, medication with alpha-lipoic acid (thioctic acid), and combination therapy. Med Oral 2004;8(1):8-13.

9- Hugoson A, Thorstensson B. Vitamin B status and response to replacement therapy in patients with BMS. Acta. Odontol. Scand 1991;49 :367-75.

10- Ladardo TC, Brugnera Juior A, Takamoto M et al. A laserterapia no tratamento da Síndrome de Ardência Bucal-Relato de Caso Clínico. 20º Congresso Internacional de Odontologia de São Paulo 2002.

11- Marcucci G. Fundamentos de Odontologia – Estomatologia. Guanabara Koogan;2005.

12- Nascimento TD, Bordini CA, Speciali JG. Síndrome da ardência bucal: diagnóstico diferencial e revisão de tratamento. Migrâneas cefaléias 2006; 9(3):80-83.

13- Nery FS, Lauria RA, Sarmento VA, Oliveira MGA. Avaliação da ansiedade e depressão da terceira idade e sua relação com a Síndrome da Ardência Bucal. R Ci Med Biol 2004;3(1):20-29.

14- Petruzzi M, Lauritani D, Benedittis M, Baldoni M, Serpico R. Systemic capsaicin for burning mouth syndrome: short-term results of a pilot study. J Oral Pathol Med 2004; 33(2):111-4.

15- Rapoport PB, Cerchiari DP, Moricz RD, Sanjar FA, Moretti G, Guerra MM. Síndrome da boca ardente: etiologia. Rev Bras Otorrinolaringol 2006; 72(3):419-24.

16- Rodríguez RC, López LJ, Chimenos EK, Sabater RMM. Estúdio de uma muestra de pacientes con síndrome de boca ardiente. Av Odontoestomatol 2007; 23(3):141-151.

17- Silverman S, Eversole LR, Truelove EL. Fundamentos de Medicina Oral. Guanabara Koogan;2004.

18- Terci AO, Pacífico A, Braga FPF, Wienfeld I, Birman EG. Atualizando-se sobre a Síndrome de Ardência Bucal. Ver Odontol Univ Santo Amaro 2007;12(1):32-35.

 

Abstract

The Burning MouthSyndrome (BMS) is a condition characterized by burning sensation of the oral tissues withouta physical cause. This condition affects especially mild menopausal woman over 50 years old. Many Factors have been suggested as possible etiology of this condition. The importance of psycological factors such as anxiety and depression on the development of this condition. There is not an established treatments, nevertheless, a multidisciplinary approach is recomended.

 

Descriptors:

Mouth mucosa. Etiology. Diagnosis. Therapy.


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